sexta-feira, 16 de abril de 2010

O sorvete da tia Araci. O melhor do bairro.

Tenho um amigo. De infância. O nome do guri é Osvaldo, chamam de Osvaldinho. O Osvaldinho sempre passeava nos finais de semana e no tempo livre dos outros dias, com o pai. O Moacir. Ali no bairro tinha a extinta sorveteria da tia Araci, estabelecimento caseiro, precário e de pouco movimento. Mas o Osvaldo tinha a mania de toda hora me falar daquele sorvete e da sorveteria . Que eu podia até julgar o lugar precário e tal, mas o sorvete.. era o melhor da cidade. Toda folga do pai estavam os dois lá. Moacir pedia o de passas ao rum. O Osvaldo já ia logo botando o de flocos no copinho. Pagavam o valor que aparecia na balança enferrujada da Araci, e iam se sentar nas mesmas de boteco que a velha botava em frente do estabelecimento. Moacir ficava contando do dia que teve no trabalho, o garoto pouco entendia os procedimentos que seu pai fazia no trabalho, mas gosta de ouvir. E mesmo não entendendo dava uma brecha pro Moacir contar mais um pouco. Em seguida vinham as brincadeiras, as histórias que ouviam por aí e por fim algumas piadas e discussões de futebol, outro assunto que o garoto boiava. Mas adorava.

Anos se passaram, entre passas ao rum e sorvetes de flocos. Até que um dia eu vejo o Osvaldinho passar aqui na frente de casa, o pai não estava ao lado. Desci correndo as escadas do prédio pra conversar com o guri. Tentei puxar alguns assuntos, mas a resposta era sempre com a cabeça, um sim , um não. Antes de eu notar qualquer coisa, o Osvaldinho me disse que tinha perdido o pai, à 6 dias atrás, o assunto acabou e o pia ficou alguns dias isolado.

De vez em quando até via ele com alguns amigos passando aqui pela rua, ele até voltou a passar aqui em casa pra dar uma conversada . Mas havia parado com o papo do sorvete que persistira por tantos anos. Perguntei pra ele, se havia enjoado do lugar, que eu sempre disse não ser lá grandes coisas, e ele , com a fala mansa, diferente das animações de outrora, me disse:
- Aquele sorvete nunca foi bom, o lugar menos ainda, um butecão! O sabor de flocos era "tri"aguado, nem sei como eu tomava litros daquilo e achava a melhor coisa do mundo. Eu nunca fui lá comer sorvete de flocos, apesar de sempre acha-los o maior motivo pra ir até lá. Agora eu vejo, por mais velho e mal tratado que era o lugar, era o melhor lugar do mundo. Eu ia lá com meu coroa. E isso me bastava, me completava.

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