Todo mundo tem ou já teve um amigo que nem o Piolho. O guri era daqueles que menos se envolviam nos planos mirabolantes do "pessoal do fundão", mas no final da aula não dava outra. Era direção, poltroninha frente à frente ao diretor, diretor bravo, explicação, tentativa de explicação, ocorrência para a Dona Suzana assinar. Recém chegado de Livramento então, era um prato cheio para os colegas aqui da capital. Não conhecia nada em Porto alegre, sabia que tinha de pegar o T5, casa para a escola, escola para casa. Na segunda pela manhã, o Jair, diretor da escola, organizou uma excursão para uma partida do Grêmio, pelas quartas-de-finais da libertadores. O Piolho entrou em estase, foi para casa , no T5 , cantarolando as musiquinhas da torcida gremista que ouvira no Youtube. De segunda até a quarta feira, o tempo se arrastou, empacou, como um daqueles pangarés velhos que estava acostumado à ver por suas antigas bandas. Seria seu primeiro jogo.
Cachecol tricolor, toquinha azul, camisa sobre o casaco, era tanta roupa, mas o Poilho ainda conseguia sentir o coração bater forte. Bateram no seu ombro. Eram os colegas : - Ô Piolho, vamos sair "bem na manha" daqui e dar um pulo ali na geral do Grêmio. A idéia soou arriscada, se descolar da excursão, sei não. Mas foi. O fascínio que ele tinha por aquela torcida era imenso. Mal esperava a hora de ir para a tal geral, cantar durante o jogo todo e ainda poder dizer aos colegas no recreio de quinta-feira que esteve lá. Demais ! Se embebedaram os cinco , com um copo de cerveja, e entraram pulando e cantando até o amontoado de gente que fica atrás da goleira.
Falta! E essa é pro Souza bater, pensou ele. Souza cruzou. Borges chegou para concluir de cabeça , mas a bola acabou batendo do lado de fora da rede. Os lances iam ficando cada vez mais perigosos ao adversário, um timeco Chileno, Peruano, composto de Nunez, Perez, Rodriguez, Alvarez, ariba ! Mal sabia o guri. Zero à zero injusto, mas o time da azenha não se acanhava. Trinta e dois minutos do segundo tempo. Douglas pedalou, lançou Fábio Santos que passou correndo pela lateral esquerda. Fabio Santos na linha de fundo da dois cortes no zagueiro, cruza e ta lá ! Negrão Borges! Faltou ar, faltaram palavras. No meio da empolgação nem passou pela cabeça que tinha de descer a avalanche. Concreto. Concreto no queixo, no joelho, na canela. Parecia uma vítima no meio de um arrastão em Ipanema. Todo ralado, um tombo daquelas para filmar e mandar para qualquer programa dominical. O joelho sangrava, a canela também. O ante-braço todo ralado, a coxa também. Se levantou, e achou um de seus amigos, subindo os degraus depois da avalanche, o guri logo disse:
- Não foi nada.
- Como não foi nada ? – disse o Piolho fazendo gestos de desentendimento com os braços – Tô todo ralado ! Olha isso aqui.
- O Gol.
- É , pelo menos o gol !
- O gol, não foi nada. Anulado
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