segunda-feira, 26 de abril de 2010
O poeta e seu público.
O prazo estipulado pela editora, estava próximo ao término; o poeta tentara intervir nos dias que passavam, mas seu renome ainda não lhe concedera tal poder, limitou-se então à cafeína e a madrugada, duas companheiras sórdidas necessárias para suas criações coloridas e macias. Mas errou. Seu cérebro dopado de silêncio e pressão, junto ao olhar caído e cinzento, o fizeram e nem notaram. Eram vírgulas ali, palavras em seqüência errônea aqui. O cérebro e o olhar dopados. Rejeitaram qualquer percepção do erro.
O trabalho fora lançado. Seu ego? Bombardeado de elogios, qualquer aparição se tornara uma faixa de gaza. A conta bancária transbordou como a piscina olímpica. Mas e este erro? Pensou ao ler pela primeira vez o livro lançado. O que pensarão, falarão, farão?
Genial. Jogada de mestre, seqüência abstrata e proposital, modus operandi único, merece uma resenha! Pensaram os leitores ao perceberem (ou não) o erro do seu livro. "Poeta star", que nunca se dera o luxo de errar, diante de uma platéia que lhe dava, e em seqüência, aplaudia, errôneamente, como suas palavras na página oitenta e três.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Piolho gremista.
Todo mundo tem ou já teve um amigo que nem o Piolho. O guri era daqueles que menos se envolviam nos planos mirabolantes do "pessoal do fundão", mas no final da aula não dava outra. Era direção, poltroninha frente à frente ao diretor, diretor bravo, explicação, tentativa de explicação, ocorrência para a Dona Suzana assinar. Recém chegado de Livramento então, era um prato cheio para os colegas aqui da capital. Não conhecia nada em Porto alegre, sabia que tinha de pegar o T5, casa para a escola, escola para casa. Na segunda pela manhã, o Jair, diretor da escola, organizou uma excursão para uma partida do Grêmio, pelas quartas-de-finais da libertadores. O Piolho entrou em estase, foi para casa , no T5 , cantarolando as musiquinhas da torcida gremista que ouvira no Youtube. De segunda até a quarta feira, o tempo se arrastou, empacou, como um daqueles pangarés velhos que estava acostumado à ver por suas antigas bandas. Seria seu primeiro jogo.
Cachecol tricolor, toquinha azul, camisa sobre o casaco, era tanta roupa, mas o Poilho ainda conseguia sentir o coração bater forte. Bateram no seu ombro. Eram os colegas : - Ô Piolho, vamos sair "bem na manha" daqui e dar um pulo ali na geral do Grêmio. A idéia soou arriscada, se descolar da excursão, sei não. Mas foi. O fascínio que ele tinha por aquela torcida era imenso. Mal esperava a hora de ir para a tal geral, cantar durante o jogo todo e ainda poder dizer aos colegas no recreio de quinta-feira que esteve lá. Demais ! Se embebedaram os cinco , com um copo de cerveja, e entraram pulando e cantando até o amontoado de gente que fica atrás da goleira.
Falta! E essa é pro Souza bater, pensou ele. Souza cruzou. Borges chegou para concluir de cabeça , mas a bola acabou batendo do lado de fora da rede. Os lances iam ficando cada vez mais perigosos ao adversário, um timeco Chileno, Peruano, composto de Nunez, Perez, Rodriguez, Alvarez, ariba ! Mal sabia o guri. Zero à zero injusto, mas o time da azenha não se acanhava. Trinta e dois minutos do segundo tempo. Douglas pedalou, lançou Fábio Santos que passou correndo pela lateral esquerda. Fabio Santos na linha de fundo da dois cortes no zagueiro, cruza e ta lá ! Negrão Borges! Faltou ar, faltaram palavras. No meio da empolgação nem passou pela cabeça que tinha de descer a avalanche. Concreto. Concreto no queixo, no joelho, na canela. Parecia uma vítima no meio de um arrastão em Ipanema. Todo ralado, um tombo daquelas para filmar e mandar para qualquer programa dominical. O joelho sangrava, a canela também. O ante-braço todo ralado, a coxa também. Se levantou, e achou um de seus amigos, subindo os degraus depois da avalanche, o guri logo disse:
- Não foi nada.
- Como não foi nada ? – disse o Piolho fazendo gestos de desentendimento com os braços – Tô todo ralado ! Olha isso aqui.
- O Gol.
- É , pelo menos o gol !
- O gol, não foi nada. Anulado
domingo, 18 de abril de 2010
Rock'n'Love
Tentou tentou, e nada. Não saía um "ai" do negócio. Não conseguira entender bulhufas daquela eclética revistinha barata de partituras. Que era dividida entre "Light My Fire" do Doors e "Pare", este, clássico do "ZezéDiCamargoeLuciano".
Na saída da escola, lá estava ele com um teclado debaixo do braço esperando a Sofia. A Sofia achou o máximo o som que ele tirou no teclado. Que música desconhecida do The Doors que nada! Mal sabia a moça que aquilo não passava de uma música infantil ritmada de outra maneira. Ao menos, Andrei se saiu bem na foto.
Certo sábado, regado à uma cervejinha, Andrei abriu o jogo. Estava revelado o segredo das músicas poucos conhecidas do Doors, que não passavam de um "Cai, cai balão" em outro ritmo. OH !
- É verdade - disse ele rindo - nunca toquei nada, não sei como você caiu nessa.
Sofia achou graça e resolveu fazer o mesmo, resolveu abrir o jogo também, de maneira inocente :
- Andrei, se eu te contar você nem acredita hehehe..
- O que? Fala, fala.
- Eu nunca fui fã do The Doors.
- O que?
- Ouvi duas ou três faixas de um vinil da minha mãe. A verdade é que usei isso pra me aproximar de você, e rendeu, não acha? - Disse ela envolvendo seu braço sobre os ombros do guri - Olha nos dois, aqui, juntinhos.
Tudo bem, tudo bem, pensou ele no auge da confusão, fazer uma brincadeira inocente com o teclado do tio-avô pra agradar ela, tranquilo. Agora, calunia-lo, envolvendo The Doors, God Morrison e Break on Through, isso nem o inimigo mais frio do guri faria. Crime internacional !
Para amenizar o trauma do fim do relacionamento, ele foi na loja de camisas do shopping, comprar a nova que chegou da banda. Entrou na loja, olhou alguma coisa qualquer e foi em direção à arara de roupas em que estava sua camiseta. A lojinha estava lotada para uma terça feira, tentou passar por um casal de namorados em um lugarzinho estreito. Os dois com a clássica linguinha pra fora. Os dois de camisa dos Stones. O guri falava empolgado da camisa do Mick Jagger que chegara, a menina concordava timidamente. A guria? Mais fã de Stones impossível, ali estava ela, Sofia. A groupie de fãs.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
O sorvete da tia Araci. O melhor do bairro.
Anos se passaram, entre passas ao rum e sorvetes de flocos. Até que um dia eu vejo o Osvaldinho passar aqui na frente de casa, o pai não estava ao lado. Desci correndo as escadas do prédio pra conversar com o guri. Tentei puxar alguns assuntos, mas a resposta era sempre com a cabeça, um sim , um não. Antes de eu notar qualquer coisa, o Osvaldinho me disse que tinha perdido o pai, à 6 dias atrás, o assunto acabou e o pia ficou alguns dias isolado.
De vez em quando até via ele com alguns amigos passando aqui pela rua, ele até voltou a passar aqui em casa pra dar uma conversada . Mas havia parado com o papo do sorvete que persistira por tantos anos. Perguntei pra ele, se havia enjoado do lugar, que eu sempre disse não ser lá grandes coisas, e ele , com a fala mansa, diferente das animações de outrora, me disse:
- Aquele sorvete nunca foi bom, o lugar menos ainda, um butecão! O sabor de flocos era "tri"aguado, nem sei como eu tomava litros daquilo e achava a melhor coisa do mundo. Eu nunca fui lá comer sorvete de flocos, apesar de sempre acha-los o maior motivo pra ir até lá. Agora eu vejo, por mais velho e mal tratado que era o lugar, era o melhor lugar do mundo. Eu ia lá com meu coroa. E isso me bastava, me completava.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
É preciso : arte.
É preciso cair de cabeça nesse abismo, para não abismar-se com qualquer simplismo
É preciso preciso absorve-la intensamente, mas cuidado para não deixar de expeli-la aos outros
É preciso todo um egoismo para ser só tu e ela. Descanalize este egoísmo quando passa-la adiante
É preciso da contradição; o abstrato é tão mágico, mesmo com o realismo sendo único, ali. Na página seguinte.
É preciso correr atras do raro e também é preciso aceitar o que é trazido até ti. Sem burocracias. Mesmo quando bem usada pra filtrar o melhor.
É preciso do empoeirado.Estaria morta se só o empoeirado fizesse sentido. É preciso do plastificado.
Mesmo todas essas palavras soando quase que 'politicamente incorretas' nos dias de hoje; é preciso
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Coisinhas.
O café sempre preto servido em uma velha xícara cinza, que antes apenas me proporcionava o prazer da cafeína, hoje me traz teu gosto, teu cheiro. Aquela volta no parque que parece (e de fato é) tão caseira e rotineira, hoje faz-me lembrar da tua companhia, das memórias recentes ali vividas e divididas, que por um acaso não se repitiram no dia de hoje, e são só memórias.
"A felicidade está presente nas pequenas coisas e detalhes da vida". Essas palavras tomam forma enquanto estamos juntos, mas logo a seguir, na despedida no fim da tarde, as pequenas coisas tornam-se grandes e sufocantes, cheias de malícia, insuando com fervor que foram com elas, foram nelas que "o diferencial" da minha vida ocorreu . Memórias .
Se à terceiros, essas palavras parecem doentias e causam aversão, Sou George Orwell. A ponte que liga os dois extremos, trago viva a informação e o sentimento daquilo que importa na vida, à aqueles que se limitam à desdenhar.. mesmo dando prioridade aos que me entendem. Os que lêem as linhas virtuais e se encaixam em cada situação descrita, aqueles que no ápice da ausência de calor que a solidão nos proporciona, encontraram o aconchego, aquele cachecol no fundo do guarda roupa, que esquenta, cativa e torna diferente o resto dos dias.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Transgressão crônica, ascensão eletrônica.
A nossa transgressão é latejante, absurda, vulgar e insinuate.Claro, somente aos olhos, não menos atentos, daqueles que por distração (encare isso como uma virtude), desviaram o olhar da tela cheia de cores e design, daqueles que por distração resolveram deixar os fones (hoje com tecnologia da nasa) cair brutamente de seus ouvidos, e mesmo com todo o conforto das batidas sintetizadas , e vozes robóticas das loiras mais photoshopadas do planeta, resolveram ser duros, verdadeiros e honestos consigo mesmo e encarar a mediocridade do cotidiano; que antes parecia colorida e descolada, hoje aos que resolveram ser francos, é cinza e decadente.
Não quero , nem devo chamar essa nossa convivência indiferente com o mediocre de adaptação. Distração! aprendemos a distrair-mos com o que nos oferecem, as sequelas deste conflito da transgressão que oprime de forma vulgar e insinuante as pessoas contra a ascenção dos botões coloridos e aventuras elficas em primeira pessoas,quase reais, ninguem sabe.